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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Mãe Só Há Uma (2016)



Após explodir nacional e internacionalmente com Que Horas Ela Volta? (2015), Anna Muylaert retorna ao ambiente familiar e às relações entre pais e filhos neste Mãe Só Há Uma, filme livremente inspirado no caso Pedrinho (aqui chamado de Pierre / Felipe), que em 1986 foi roubado da maternidade e criado por outra família até o crime ser desvendado publicamente anos depois. No entanto, Muylaert não foca a atenção nos detalhes que envolveram o processo investigativo do caso, mas sim na repercussão de âmbito pessoal, isto é, no impacto sobre as pessoas envolvidas.

Trata-se aqui da ruptura familiar e até mesmo da identidade de Pierre / Felipe, o que Muylaert desenvolve em dois momentos bem didáticos.

No primeiro, utiliza-se da transição de ambientes da personagem principal para discutir as diferenças de classe que permeiam a sociedade brasileira. Pierre sai de sua antiga casa, simples e desorganizada, para viver na suntuosa casa de seus pais biológicos, membros da classe média / alta brasileira.

No segundo, Pierre, que pinta as unhas e se tranca no banheiro para se vestir de mulher, tem que enfrentar a posição dura dos pais biológicos contra esse tipo de manifestação pessoal, ao contrário do que estava acostumado no lar em que cresceu.

Muylaert joga com esses dois aspectos de forma afunilada para desembocar na sua proposta: a classe média / alta brasileira segue a tendência do conservadorismo e, por isso, resiste ao comportamento desvinculado das tradições. Aqui, há um elemento adicional, porque os pais biológicos entendem que esse comportamento de Pierre representa a família anterior, razão pela qual ceifá-lo significa apropriá-lo para si; para o seu mundo.

Neste sentido, Muylaert volta a demonstrar certa dificuldade nessa discussão de classes proposta, já que tende a cair numa espécie de vilanização do polo economicamente mais favorecido, assim como fez descaradamente em seu filme anterior. Em Mãe Só Há Uma, a diretora tenta a todo instante diluir essa segregação, sendo bem sucedida (as portas do condomínio que se fecham) e mal sucedida (a sequência das compras) conforme o filme avança.

Se o filme se sai relativamente bem no modo em que propõe discussões e reflexões, não é tão feliz no aspecto formal. Primeiro porque é recheado de elipses desconexas e confusas, que levam a cenas um tanto desnecessárias na primeira metade do filme. Segundo porque o estilo de “câmera na mão” segue todos os artifícios batidos possíveis dessa forma de filmar, como, por exemplo, tremer e movimentar a câmera freneticamente sempre que um momento de alta intensidade dramática surge.

Talvez tenha faltado ao filme a parcimônia estética da obra anterior (uma questão orçamentária?), ainda que ele tenha lá sua pertinência temática nestes tempos sombrios para a sociedade brasileira. De todo modo, trata-se de um filme melhor quando visto sob a ótica da inadequação (algo que a cena final sugere com peculiar sutileza) do que sob o olhar da luta de classes.

Mãe Só Há Uma (Brasil, 2016)
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Naomi Nero, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Daniel Botelho, Lais Dias, Luciana Paes e outros.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Julieta (2016)



Poucos diretores da atualidade construíram uma expectativa em torno de sua obra tão marcante quanto Pedro Almódovar. A cada novo filme, filas de espectadores entram no cinema aguardando mais um grande filme sobre as relações humanas, especialmente aquelas atinentes ao mundo feminino. O efeito perpetrado por tamanha expectativa é, na maioria das vezes, acobertar aquilo que já óbvio há um bom tempo: Almodóvar não está mais no ápice de seu processo criativo.

Julieta, este seu mais recente filme, comprova essa assertiva. Na trama, Julieta, vivida pelas atrizes Emma Suárez e Adriana Ugarte em diferentes épocas, está para se mudar de seu apartamento em Madri com Lorenzo (Darío Grandinetti). Certo dia, esbarra na rua com Bea (Michelle Jenner), amiga de infância de sua filha, fazendo com que memórias passadas aparentemente enterradas retornem em sua vida. A partir de então, Julieta contará sua história em uma carta direcionada à filha que não vê há 12 anos.

A trama é baseada nos contos de Alice Munro e Almodóvar, em princípio, parece ser o diretor ideal para transpor para o cinema tais relatos, afinal construiu toda uma obra calcada na sutileza e complexidade das relações humanas. Contudo, o que vemos aqui é um cineasta excessivamente contido, distante daquele diretor de estética extravagante e de narrativas mais ousadas, o que torna Julieta um filme particularizado dentro de sua carreira, mas sem criatividade na forma em que é conduzido. Os eventos se sucedem com certo aborrecimento, pouco inspirados visualmente, embora a paleta de cores marcantes esteja presente aqui e ali (principalmente nas cenas de apartamento).

Além do mais, Almodóvar insiste em construir o seu melodrama com um tom de suspense totalmente desnecessário, uma vez que as reviravoltas narrativas não condizem com o teor da história contada, qual seja, um drama familiar alicerçado em amarguras passadas. Por conta disso, a trilha sonora de Alberto Iglesias faz um desserviço ao manter-se onipresente, como se cada cena fosse desembocar em uma revelação bombástica, quando, ao fim e ao cabo, nada disso ocorre.

No fim, longe de ser a sucessão de erros que foi o seu filme anterior (Os Amantes Passageiros, 2013), Julieta comprova que os áureos tempos de criatividade estético-narrativa do diretor espanhol distanciam-se cada vez mais, cuja marca vai se tornando obsoleta e representativa de um cinema de expectativas que não se justificam.

Julieta (Espanha, 2016)
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Rossy de Palma, Inma Cuesta, Michelle Jenner, Daniel Grao, Darío Grandinetti e outros

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

As Montanhas Se Separam (2015)



Um triângulo de amizade e amor acompanha a China ao longo dos tempos, suas transformações e seu prognóstico. Essas três pessoas, por óbvio, servem como uma espécie de reflexo da guinada chinesa rumo ao Ocidente, algo que o diretor Jia Zhang-ke desenvolverá por meio de um fracionamento estrutural em três partes, as quais compreendem os anos de 1999, 2014 e 2025.

Numa janela 4:3, começamos no Ano Novo de 1999 e numa China que ainda dá passos curtos em direção à abertura ao capital. Shen Tao (Zhao Tao), Zhang Jinsheng (Zhang Yi) e Liangzi (Dong Liang jing) compartilham de uma amizade sadia até que os dois últimos passam a disputar o coração da primeira, causando a ruptura dos laços que os unem. Ao fundo desse conflito há uma questão social que o diretor explora com particular cuidado: embora Jinsheng seja um expoente da expansão econômica chinesa e Liangzi seja o trabalhador explorado, ambos desejam Shen Tao a tal ponto que não a deixam decidir por si só. A observação é simples: avançar economicamente não implica no progresso comportamental e social de uma comunidade.

Mas Shen Tao não é mulher de se deixar levar totalmente pelo homem. O segundo capítulo deixa isso muito claro ao mostra-la divorciada e distante do filho Dollar (eis a tragédia), cujo destino é falar inglês fluente e estudar no exterior. Já estamos, portanto, na China capitalista, dos McDonald’s, dos iPhones e dos carros ocidentais. Estamos também na China que vai, aos poucos, perdendo a sua identidade cultural, a ponto de Dollar – produto humano do Ocidente -  não saber como se portar diante de um procedimento funerário que segue as tradições chinesas.

Consequentemente, Dollar será esse jovem meio desnorteado, que não sabe definir qual rumo tomar em sua vida, uma vez que tudo sempre foi decidido para ele. Quando o filme vai à Austrália de 2025, depara seu espectador com o chinês aculturado, totalmente domado pelo american way of life e que não sabe conversar com o seu próprio pai na língua nativa. Para tanto, precisa de uma professora (Sylvia Chang) para traduzi-lo e guia-lo pelos rumos e angústias que a vida de riquezas lhe trouxe.

Jia Zhang-ke conduz toda essa trajetória de decadência cultural valendo-se de um melodrama cirurgicamente centrado, seja nas interpretações contidas dos atores, seja na trilha sonora que surge nos momentos pontuais, o que possibilita-o construir uma crônica alegórica sobre os rumos de seu país, ainda que o seu olhar, aqui, seja articulado de uma forma mais óbvia do que em seus filmes anteriores. No entanto, ao fim e ao cabo, trata-se do mesmo olhar sutilmente crítico que caracterizou seu cinema desde então, razão pela qual é de uma deliciosa ironia que As Montanhas Se Separam comece e termine com uma canção cujo título é Go West.

Shan He Gu Ren (China, 2015)
Direção: Jia Zhang-ke
Roteiro: Jia Zhang-ke
Elenco: Zhao Tao, Zhang Yi, Dong Liang jing, Sylvia Chang, Dong Zijian e outros.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Big Jato (2016)



O primeiro efeito de Big Jato sobre o espectador familiarizado com o cinema de Cláudio Assis é o estranhamento, afinal, as características apresentadas pelas cenas iniciais demonstram um filme distante daquilo que marcou a obra anterior do cineasta. Em vez de vermos uma carga pesada, uma encenação raivosa e um conteúdo quase anárquico, ficamos diante de um longa-metragem de ares leves e lúdicos, repleto de encantamento.

O motivo dessa voltagem mais branda é justificável, porque Big Jato é baseado na obra autobiográfica de Xico Sá, cuja premissa é a infância do menino Xico (Rafael Nicácio) no sertão nordestino. Sonhando em ser um poeta, Xico encontra a resistência do pai (Matheus Nachtergaele), um sujeito alcóolatra e raivoso que sustenta a casa limpando a fossa dos vizinhos, ao mesmo tempo em que conta com o apoio do tio (Matheus Nachtergaele também) radialista e porra-loca. Entre um e outro, Xico filosofa com um velho da aldeia (Jards Macalé) e se apaixona pela bela Ana Paula, a menina recém-chegada da cidade.

Pela sinopse acima, fica claro que Big Jato segue um certo padrão do filme sobre o amadurecimento do jovem que vive em circunstâncias adversas aos seus sonhos e desejo e, portanto, deverá aprender a se virar sozinho mundo afora. Neste sentido, embora seja uma espécie de novo horizonte no cinema de Cláudio Assis, o filme procura explorar cada um dos clichês que marcam essa forma de jornada pessoal (o enfrentamento da família e da sociedade, o primeiro amor não correspondido, a inevitável decisão de seguir sozinho, etc) sem se preocupar em inovar. Logo, tem-se um filme redundante e esquemático, que repete suas metáforas sobre o amadurecimento do garoto à exaustão, enquanto tenta encontrar, sem êxito, uma poesia efêmera e inspiradora nos lugares mais sujos possíveis.

Ao mesmo tempo, a direção de Cláudio Assis aparece pouco inspirada, geralmente afunilada nos planos altos que não dizem a que veio, e em uma encenação que tenta mesclar o tom idealizante do menino Xico com o contexto social bruto em que vive, porém com pouca nuance, o que é compreensível em se tratando de um diretor cuja obra é marcada pelo extremo oposto da sutileza. Ainda assim, Assis não consegue esconder a dificuldade em lidar com mudança abrupta de tom de seu cinema.

Big Jato (Brasil, 2016)
Direção: Cláudio Assis
Roteiro: Hilton Lacerda e Ana Carolina Francisco
Elenco: Rafael Nicácio, Matheus Nachtergaele, Marcélia Cartaxo, Jards Macalé, Francisco de Assis, Gabriele Lopes e outros.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A Academia das Musas (2016)



Nos letreiros iniciais, diz-se que o filme é uma experiência acadêmica do professor Raffaele Pinto filmada por José Luis Guerín, mas o que será encenado dali em diante não é apenas um documentário sobre a pedagogia universitária. Na realidade, Guerín valer-se-á do professor para discutir os limites, seja entre ficção e realidade, seja entre a relação entre professor e aluno, seja entre a visão antiga e moderna da mulher.

Ocorre que Guerín não é um diretor de evidências. Sua encenação é articulada de forma a entregar à palavra a força de sua dramaturgia, enquanto a estética segue padrões mais objetivos e desafetados. O resultado direto dessa engrenagem é um filme que não desvenda o seu método de maneira facilmente identificável, uma vez que nos diálogos reside a ambiguidade do que a câmera captura com objetividade.

Grande parte desse mistério está na personagem central, que não deixa de ser também uma espécie de vilão ou antagonista. O professor Raffaele Pinto, da cadeira de filologia da Universidade de Barcelona, investiga a importância das musas como fonte de inspiração dos grandes autores da Antiguidade e do Renascimento para a criação de obras marcantes, ao passo que tenta resgatar o valor da musa para a contemporaneidade. Suas alunas contrariam essa disposição do professor ao alegarem que a visão dos autores clássicos era essencialmente patriarcal, de uma mulher subserviente e à serviço do homem. Imediatamente, a justaposição das duas visões – professor e aluna –  passa a permear a relação que ambos têm fora da sala de aula.

Neste sentido, A Academia das Musas opera um verdadeiro “paredão” contra o professor. Sua visão tradicional, de subordinação da mulher ao homem, da aluna ao professor, é constantemente atacada por suas pupilas, mas Guerín confere uma especial atenção para que esse homem tente justificar, de forma bastante problematizada, o seu posicionamento. Como, aqui, a dramaturgia reside na palavra, esse homem-vilão ganha contornos cada vez mais ambíguos, o que engrandece a disputa travada com suas alunas, ao mesmo tempo em que ressalta o caráter absurdo da sua visão.

Porém, Guerín não se contenta em malhar apenas o professor. Na cena em que uma das alunas confronta a sua esposa, o diretor expõe que, ao fim e ao cabo, o discurso de Raffaele Pinto surte algum efeito sobre as mulheres de sua vida, tendo em vista que ambas, ao invés de criticá-lo como fazem em seus respectivos ambientes (o acadêmico e o domiciliar), preferem disputar quem tem mais valor para ele. Ou seja, reduzem-se aos papeis que veementemente repudiam.

Se “educar é seduzir”, como Raffaele Pinto diz em determinado momento, José Luis Guerín prova que a alforria da mulher e da arte ainda não está plenamente referendada. Resta apenas a libertação do espectador, que julga moralmente com base nos elementos artísticos montados pelo diretor. É o que todo filme precisa.

La Academia de las Musas (Espanha, 2016)
Direção: José Luis Guerín
Roteiro: José Luis Guerín

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Campo Grande (2016)



Rayane (Rayane do Amaral) e Ygor (Ygor Manoel) são abandonados na porta da casa de Regina (Carla Ribas), uma moradora de Ipanema que desconhece as crianças. Sem ter muito trato com elas, Regina tenta a todo custo encontrar uma solução para o problema: entrega as crianças para a empregada cuidar, vai à caça do paradeiro da mãe, desiste de ajuda-las até, enfim, aceitar os fatos que estão diante de si. Como Lila (Julia Bernat), sua própria filha, joga em sua cara em determinado momento, ela não sabe ser mãe.

Aparentemente, estamos diante de um filme que reúne todas as condições de um dramalhão novelesco tentado a fazer observações supostamente pertinentes sobre o estado atual das coisas. Contudo, o material foi criado por Sandra Kogut, uma diretora que já em seu filme anterior (Mutum, de 2007) demonstrava uma consciência narrativa calcada nos pequenos detalhes que fazem da conduta humana uma fonte inesgotável de estudo social. Portanto, não surpreende que Campo Grande seja um filme que busca chegar à intimidade de suas personagens para, a partir dela, traçar a sua visão global da realidade que as cerca.

Num primeiro momento, há a particular atenção à descoberta de quem são essas pessoas que preenchem a narrativa. As crianças, vividas por atores de primeira viagem, partem de uma noção de desordem e instabilidade emocional para chegar ao desejo mais honesto de suas ações inconsequentes: encontrar a mãe que as abandonou. Do outro lado, Regina, vivida por uma poderosa Carla Ribas, é essa mulher durona e pouco afável que vai se amansando diante da falta da angústia de duas pessoas que sequer têm uma noção de mundo firmada.

Nesse processo de sedimentação das personagens, há o Rio de Janeiro como a personagem onipresente, em constante reforma (são diversos os planos com a cidade em obras) para chegar ao futuro como um exemplo de desenvolvimento urbano. Contudo, a Rio de Janeiro que intensifica sua infraestrutura é a mesma cidade que fecha os olhos para suas margens, para a sua população necessitada e desamparada pelo crescimento desordenado.

São esses dois polos – o intimista e o global – que afastam o filme de se tornar mais uma daquelas obras vulgares sobre a exposição da burguesia brasileira à realidade que a cerca. Com ternura e bom senso, Sandra Kogut pode não ter feito um grande filme político-social, mas fez uma obra que, delicadamente, observa a precariedade por trás da publicidade pública.

Campo Grande (Brasil, 2016)
Direção: Sandra Kogut
Roteiro: Sandra Kogut e Felipe Scholl
Elenco: Carla Ribas, Ygor Manoel, Rayane do Amaral, Julia Bernat, Márcio Vito e outros.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Uma Noite em Sampa (2016)



Um grupo formado por paulistas do interior do Estado se reúne para conferir uma peça de teatro na capital. Assim que o espetáculo acaba, o grupo percebe que o motorista do ônibus fretado, que os trouxe, desapareceu, deixando-o sozinho e abandonado na noite fria e misteriosa do centro de São Paulo. A partir de então, está lançada a tragicomédia paulista moderna.

Nas mãos de Ugo Giorgetti, os contornos dessa narrativa serão necessariamente cômicos e com um olhar ácido sobre a postura da classe média diante das circunstâncias incômodas proporcionadas pelo cotidiano de todo e qualquer cidadão. Tal incômodo, contudo, parte do inconsciente comum do paulista interiorano de ontem e de hoje, cuja visão é de uma São Paulo gélida, violenta e amedrontadora. Não é à toa que, passados poucos minutos do isolamento do grupo, os discursos de medo e preconceito contra a cidade começam a surgir gradualmente, fruto de um isolamento auto-imposto pela classe média paulista diante da cultura do medo metropolitano que lhe é inserido na mente a cada novo programa policial sensacionalista.

A observação do filme reside justamente nesse elemento: construiu-se uma imagem de uma São Paulo tão violenta e nefasta que a classe média, a principal consumidora das notícias policiais da TV, se encastelou em sua própria casa em busca de segurança.  É por isso que cada personagem tem a sua oportunidade de bradar que não gostaria de estar ali, que preferia ter ficado em casa ou que, dentro de instantes, um bando de assaltantes executará um plano mirabolante para lhes roubar. Diante do pavor e do preconceito, resta apenas ao grupo ficar parado ali, naquela localidade, esperando por alguma ajuda.

Essa inércia rapidamente ganha forma de alegoria, concretizada por meio da inserção de manequins em meio ao grupo de personagens.  É a petrificação do paulista diante de uma imagem distorcida de realidade, que só o faz discursar, discursar e discursar sem tomar qualquer atitude. Bastava o grupo andar algumas quadras dali para encontrar alguma forma de saída para aquela situação, mas não, preferem deixar-se levar pelos preconceitos imobilizadores, a ponto de, no fim, todos se tornarem um manequim dessa imagem midiática de São Paulo. Inteligentemente, um caminhão de lixo da Prefeitura passa com os dizeres de uma São Paulo amorosa. Ora, nada mais tragicômico do que isso.

Uma Noite em Sampa (Brasil, 2016)
Direção: Ugo Giorgetti
Roteiro: Ugo Giorgetti
Elenco: Flavia Garrafa, Cris Couto, Andréa Tedesco, Roney Facchini, André Corrêa, Fernanda Viacava, Agnes Zuliani, Thiago Amaral e outros.